Envelopes



Misteriosamente eu acrescentei itens na minha lista corriqueira de mercado.
Entre cebolas, tomate, caldo de legumes, iogurte branco, café e pasta de dente, eu incluí envelopes.
Misteriosamente, envelopes para cartas.
Inacessivel para a razão, coisa secreta e incompreensivel, assim esta a definição de misterio no dicionario.
Não encontrei realmente uma explicaçao para o meu subito desejo de enviar cartas desejando boas festas.
Há tantos natais que já deixei de envia-los por acha-los muitas vezes vazios, mas aconteceu ali entre a escrita da palavra cebola e tomate. A vontade de dizer para as pessoas que eu amo que sou-lhes grata pela presenca, pelo ouvido que se dispoem a me ouvir, por palavras boas ou tao somente um silencio cumplice e acolhedor.
Talvez eu saiba desvendar o misterio: um mundo tao confuso que se apresenta agora no nosso momento, um mundo de tanto odio, de não respeito, de impaciencias e superficialidades.
Junto com a vontade, surgiu tambem uma alegria, uma vontade de fazer chegar um sorriso, uma boa energia. Eu, com quase meio seculo de vida, já bem sei que não existira um ano novo repleto de felicidade, de toda a felicidade do mundo. Havera bons dias e dias ruins que agora eu compreendo que são parte de nosso viver e possamos passar por eles sem perder a possibilidade de enxergar luz e beleza nesses momentos sem cor.
Seria branco os envelopes de minha lista, acrescentei-lhe cor. A minha cor favorita. Encontrei nos arquivos de computador a fotografia mais bela que fiz dia desses. Num livro que me emprestaram havia na primeira página, no primeiro texto, a frase que se encaixou com perfeição à flor da fotografia.
Pedi muitas copias de uma mesma imagem sob olhar indignado do moço, escolhi uma caneta entre tantas e tentei caprichar na caligrafia, mesmo sendo-me dificil essa parte.
Coincidiu haver tarefas para eu executar no centro da cidade, estando ao atravessar de uma rua, uma agencia dos correios. Que entrei e estava lotadissima, mas logo avistei o papel sulfite grudado na parede dizendo que, para quem desejasse somente enviar cartas, dessas que foram comuns no passado, dessas de grudar selo, ignorando codigos de barras, não se importando com comprovantes de postagem e recebimento. Uma carta simples ainda que em envelope colorido que a gente confia que vai chegar, não precisaria tomar o rumo da enorme fila. O guiche das cartas simples é o mais disponivel, o de braços abertos, o mais vazio. Não é movido pelo som da senha piscando no painel. É movido apenas pelo som de um sorriso e um muito obrigado.
mistério que me impulsionou, tratou de traçar caminhos floridos, leves e assim seguem as cartas que misteriosamente senti vontade de enviar.

Comentários

  1. Que lindo Ana. Você escreve muito bem. Estou emocionada. Beijos

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    Respostas
    1. Obrigada Elisa! Sempre bom tê-la por aqui.
      Beijo.

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  2. E daqui a gente fica sem saber o que tem mais beleza: a fotografia, a intenção misteriosa, ou as palavras!

    Ahh e por falar em beleza, que leveza nesse blog. Não conhecia. Assinando o feed!

    Beijos querida!

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  3. Obrigada Tere e um beijo na Maria!
    Que bom que gostou; espero mesmo trazer levezas para cá!
    Bj

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  4. Te ler faz um bem danado, uma paz se instala! Adorei! bjs, chica

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